por Fabiane Borges

REVERÊNCIAS E ANDRAJOS / REDES E LIMINARIDADES


Um homem de rua se espreguiçou do fundo dos amontoados dos sacos pretos de lixo; parecia estar emergindo das fissuras dos paralelepípedos. Ele se espichava vagarosamente, cascas de batata despencavam dos seus braços, pedaços de panos rasgados esfarrapavam-lhe o peito, um berro se enunciava.

Se não soubesse que era um morador de rua, pensaria tratar-se de uma eletrizante intervenção performática, produzida por algum performer inconformado com os espaços comuns de atuação de sua arte, resolvido a assumir a rua como lugar legítimo de experiência e produção.

O timbre do berro do homem-despacho era similar aos berros advindos das ruínas das Alemanhas neubautenianas. Aquele berro de rua emergido dos sacos de lixo mostrava um desespero ainda não suplantado.

A manifestação transitória das imagens, a narrativa fragmentada, o uso descontextualizado dos elementos disponíveis naquele espaço, os gestuais minimalistas, as fusões de imagens e sons em meio a via pública, tudo isso sugeria que eu estava diante de uma obra inaudita cuja criação era abstrata, pulsativa, primária, que por influxos germinativos conectados incorporava incríveis intensidades. O mendigo alheio à sua condição de artista, criador e manifestante político produziu uma performance pública, alterando naquele momento a realidade espaço-temporal comum, confundindo imagens e hipertextualizando os sentidos da rua.Que inscrições possíveis poderiam produzir essas corporeidades-linguagens instaladas nos espaços públicos da cidade? Seria possível deflagrar a partir desses corpos/modos uma crise amplificada que produzisse efeitos para além das lutas de classes identitárias, algo como uma convulsão performa/social? Que mecanismos empregar-se-iam para amplificar seus gestos de modo a fazê-los vibrarem mais, dilatarem-se, deslocarem-se para além de seus circuitos viciados a fim de constituírem-se como linguagem produtiva no socius, sem que pra isso precise fundar um movimento organizado, político-burocrático?

Essas questões tornaram-se as mais importantes em minhas criações artísticas e produções de eventos culturais: procurar nas fissuras do cotidiano e da linguagem dos que vivem nesses altos graus de exceção, suas constelações inenarráveis. Poderiam as tecnologias performáticas e multimidiáticas atravessar os véus endurecidos da falta, sobrepostos à experiência trágica do morador de rua? Os véus culturalmente criados a partir de valores ascendentes e assépticos que costumam reduzir a expressão vital do-que-vive-na-rua à pura incapacidade de adaptação ao sistema econômico, à inabilidade de articular o discurso da linguagem lógica e à patologia crônica seriam fatores impeditivos na busca de outras variabilidades?

Para suportar essas perguntas e aprofundá-las aproximei minhas pesquisas às do Renato Cohen porque intuía ressonâncias entre elas. Cohen às voltas com performance e loucura, fragmentações e desnarrativas, produzindo espetáculos cuja via irracionalista sempre surpreendia e frustrava o público teatreiro e galerista em busca de espetáculo. E eu tropeçando nas tentativas de compreender, para além das “faltas”, “limitações” e “desorganização de classe” dos moradores de rua… Compreender seus gestos como incisivas atuações antropológicas; mesmo quando em paralisias de gestos: greves humanas.

Foi com o que denominei eventos transconectivos que pude dar vazão a algumas dessas idéias. Criei alguns hapennings públicos com grupos que operavam com softwares de imagem e som, intervenção urbana, body modification, performance, circo e outros para que, junto com moradores de rua e também trabalhadores de serviços públicos que atuavam com moradores de rua, construíssem linguagens coletivas de caráter político e estético. Mas a essas experiências faltavam ainda a eficiência de levantar e atender demandas.

Sim. Demasiado ousado fazer política com festa pública. Mas era essa minha tarefa/pesquisa. Ao invés de um relato frustrado, compartilho algumas experiências vividas e reafirmo o papel interventor e inovador da arte quando obrigada a criar em tamanhas condições de riscos e vulnerabilidades.

 

 

 

Fabiane Borges atuou com moradores de rua na cidade de Porto Alegre como coordenadora do projeto inclusão cultural da Secretaria Municipal de Cultura com crianças e adolescentes em situação de rua, em São Paulo como participante do coletivo Catadores de Histórias e psicóloga institucional de equipamentos públicos (albergues e projetos sociais) e no Rio de Janeiro como consultora do Ministério da Saúde – Unidade de Prevenção DST/Aids. É mestre em psicologia pela PUC. SP e Professora de comunicação e jornalismo na UNICESP. DF. 2006.

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