ArteCidadania, uma experiência – por Leonardo Brant

ArteCidadania, uma experiência

 

O relato a seguir compõe um quadro experimental vivenciado por um grupo de pessoas na cidade de São Paulo, que criou e desenvolveu um programa voltado para o exercício da reflexão, articulação e práxis em torno de um não-conceito, denominado ArteCidadania.

 

Antes de apresentar o processo e o sentido desse movimento, torna-se necessário apresentar o contexto em que a expressão e a conseqüente linha programática foram criadas. No final da década de 90 o Brasil foi tomado por uma série de ações financiadas por empresas privadas, que buscavam uma intersecção favorável entre o investimento em cultura, geralmente voltado para dar visibilidade às marcas, e a responsabilidade social empresarial, um movimento crescente à época.

 

Baseados nos modelos de investimento estadunidense, o investimento privado tornou-se cada vez mais comum entre os grandes grupos empresariais. A partir daí, surgiu a oportunidade de desenvolver algo ímpar. Procurada por uma empresa de tecnologia, Gtech Brasil, para desenvolver uma ação utilizando-se das leis de incentivo à cultura, a Brant Associados propôs algo inovador e arrojado para a época.

 

A proposta foi criar um laboratório para a prática artística, junto a comunidades de baixa-renda, na periferia de São Paulo. Assim foi criado o Projeto Asa, para promover o exercício e o aprendizado das artes visuais através da vivência artístico-cultural, associada ao desenvolvimento do pensamento crítico e da expressão da autoralidade. Acreditava-se trabalhar as consciências intelectual, cultural, afetiva e moral de crianças e jovens a partir da descoberta das potencialidades, ativando o fortalecimento da auto-estima e ampliando as perspectivas da relação indivíduo-sociedade.

 

As quatro unidades do Projeto Asa atendem crianças e jovens de 7 a 17 anos, matriculados no ensino público. Contam com equipes compostas por psicopedagogos, artistas e facilitadores que acompanham de perto cada indivíduo, seguindo um itinerário que estuda e pratica as artes visuais em dois ateliês: matérico e digital. O sentido das oficinas é a busca da expressão através da arte visual, seja no computador ou no papel. A cada ano é montada uma exposição, com obras concebidas pelos participantes do Asa.

 

A partir da vivência das oficinas, acompanhadas por uma equipe multidisciplinar composta de artistas, designers, arquitetos, pedagogos, sociólogos, antropólogos e coordenados pela Brant Associados, o que significa lançar um olhar permanente a respeito das políticas culturais, chegou-se à conclusão de que os paradigmas cristalizados em nossa sociedade para definir o ensino da arte eram insuficientes para definir a ação ali praticada. Nasceu assim a ArteCidadania, como uma auto-provocação, algo a ser discutido com toda a sociedade, com o objetivo de revisar paradigmas e ações comumente difundidas por este “mercado”.

 

Para dar cabo desse desafio, criou-se um Fórum Nacional de ArteCidadania, lançado durante o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2003, uma revista eletrônica com o endereço www.artecidadania.org.br, no ar de outubro de 2002 a outubro de 2006, que acumulou cerca de 15 mil assinantes, com fluxo mensal de 700 mil hits. Intimamente ligados à práxis das oficinas esses dois movimento abriram um debate com toda a sociedade sobre os processos internos do Asa, que já estavam sendo compartilhados com instituições como Instituto Ayrton Senna e Instituto Vygotskij, coordenado por Maria Benites.

 

As discussões iniciadas a partir dessa tríade: Asa, Fórum e revista, permitiu-nos ampliar reflexões e buscar uma nova plataforma para discussão pública da arte no Brasil. A relação entre arte e cidadania foi contestada como uma espécie de vacina contra os usos e abusos da arte a favor das estratégias corporativas vigentes:

É possível relacionar arte com cidadania? Todo artista é, obrigatoriamente, cidadão? E todo cidadão pode ser artista? Cidadania se conquista com arte? ArteCidadania, por quê?

 

Discutir arte ou cidadania como conceitos puros, hoje, tornou-se um exercício praticamente inútil. O abismo existente entre a pureza desses conceitos e a absurda configuração mundial do conhecimento e da vida humana nos faz questionar até que ponto, nossas mais preciosas heranças gregas nos ajudam a entender a realidade atual.

 

Por mais que os teóricos e acadêmicos se esforcem para separar o joio do trigo, a palavra arte (com “a” minúsculos ou maiúsculo), hoje é empregada pelos mais diversos setores sociais, responde aos mais diversos interesses e conseqüentemente adquire sentidos distintos, que muitas vezes se chocam e se anulam.

 

No Brasil, os direitos civis são garantidos constitucionalmente, tornando-se uma das maiores piadas de mau gosto já escritas, uma vez que a maior parte da população jamais poderá exercê-los na virtude. O mesmo se repete na maior parte dos regimes “democráticos” do mundo – sem mencionar nas outras formas de Estado, em que a pobreza impera.

 

ArteCidadania não é e nem pretende ser um conceito. Não se sustenta em afirmações ou negações. A natureza interrogativa e questionadora de sua essência é natural a qualquer pensamento ético que surge em meio à miséria, dor e injustiça. Mais que relativizar e contextualizar conceitos, a plataforma ArteCidadania ampara qualquer sujeito, artista ou não, cidadão ou não, que queira discutir a relação entre indivíduo, arte e sociedade.

 

Existe e qual é a relação entre arte e cidadania? Como se dá apropriação da arte e da cultura pelos indivíduos? Socialmente, há justiça nessa apropriação? Deveria haver? Por quê? – Esses são alguns questionamentos possíveis.

 

 

Inclusão Social

 

Outro elemento de fácil absorção pela prática neoliberal é o uso de expressões, como “inclusão social”, cidadania, responsabilidade social, entre outras. ArteCidadania surge também como uma plataforma para discutir esses conceitos:

 

Se algum dia já existiu uma origem sociológica para o termo “inclusão social”, hoje a avassaladora quantidade de propostas que utilizam a inclusão como paradigma faz com que seu significado se perca, o que acontece também com seu mais recente derivativo “inclusão cultural”.

 

houve um tempo em que inclusão social foi um termo exclusivamente vinculado às políticas públicas voltadas ao atendimento às necessidades especiais de pessoas portadoras de deficiência na escola, nos espaços públicos e no trabalho. Nesse caso, trata-se de um esforço para incluir uma minoria excluída de espaços e atendimentos públicos que deveriam servir a todos, mas foram projetados para uma maioria comum.

 

O curioso é que no Brasil, com exceção da situação mencionada, o inverso acontece: programas que propõem, através da arte e atividades culturais oferecer acesso a uma maioria privada de um privilégio reservado a minorias – arte, educação, tecnologia. Hoje, a variedade de complementos que dão nome aos projetos de “inclusão” fazem com que essa palavra adquira um sabor artificial. A adoção, cada vez mais presente, da expressão “inclusão cultural”, é um exemplo disso. Parte da premissa que um sujeito, por não compartilhar uma certa cultura (oficial, institucionalizada), é um excluído. Como se a sua cultura não existisse, não tivesse valor. Cada vez mais projetos tentam incluir, não como um movimento de troca, de sincretismo, mas de imposição cultural. Pode a arte ser instrumento de inclusão social?

 

Com a interrupção do financiamento empresarial, desfez-se a plataforma, mas a oficina continua a funcionar, cada um a sua maneira, sem dogmas, regras ou pseu-tecnologias culturais nas comunidades: o Asa Estação, nos Campos Elíseos, São Paulo; Asa Promove, no bairro do Jaçanã, também em São Paulo; Asa Seiva, em Barueri, SP; Asa Promove, em Diadema, SP e Asa na Casa, em Campo Grande, MS. O programa segue em frente coordenado pela pedagoga Eunice Medeiros, do Instituto Pensarte.

 

Leonardo Brant, janeiro de 2007.

 

 

 

Autor dos livros Mercado Cultural, Políticas Culturais, vol.1 (org.) e Diversidade Cultural (org.), Leonardo é presidente da Brant Associados, ateliê de políticas culturais, e editor da revista Cultura e Mercado.

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