Cultura como meio de transformação social – por Maria Elisa Cevasco
Cultura como meio de transformação social
Maria Elisa Cevasco
A concepção abrangente de cultura como uma forma determinada de organização dos significados e valores de uma sociedade específica coloca, de saída, a questão da sua função social. Esta torna-se ainda mais premente em nosso mundo conectado pelos meios de comunicação de massa que penetram todas as esferas da sociedade. A expansão da esfera da cultura em nossos dias é de tal ordem que já se disse que a lógica que impulsiona nosso modo de vida é ele mesma feita de imagens e representações, em uma palavra, de produção cultural. São os produtos culturais que moldam nossa subjetividade , nosso sentimentos, nossa visão de mundo e, em tempos de criação de desejos pela propaganda, nosso próprio Inconsciente. Essa situação tem suscitado uma série de posições sobre a função social da cultura.
Para efeitos de sumário, podemos dizer que de um lado há os que deploram a abrangência dos meios de comunicação de massas e a padronização das artes e concluem: em nossos dias a função da cultura é manipular corações e mentes, formando seres humanos padronizados e incapazes de qualquer criatividade. No extremo oposto, há os que celebram a nossa era como a das possibilidades infinitas de contato quando finalmente há condições técnicas para que todos se comuniquem e coloquem suas posições.
Penso que nesse momento vale a pena retomar certas teorias da tradição materialista de crítica cultural que nos podem ajudar a nos situar no debate. Theodor Adorno nos chama a atenção para o fato de que o funcionamento corrente da cultura, o qual ele resume como o de uma indústria cultural, se apóia em um procedimento de manipulação e, para funcionar bem depende de um procedimento contrário, de gratificação. No entanto, o oferecido pela grande maioria desses produtos é o da mínima exigência: o prazer do fruidor viria da certeza que esses produtos lhe dão, não se lhe vai pedir questionamentos ou problematizações, mas apenas receba as formas e conteúdos veiculados. Esse tipo de recepção inscrita nos produtos leva à passividade e, por tabela, ao endosso da situação vigente. Para o crítico empenhado, que visa pensar a contrapelo dessa situação, resta buscar as formas possíveis de gratificação sem manipulação. Para Adorno, essa gratificação sem receita, que se abria para diferentes interpretações e possibilitava um conhecimento novo, estava na grande arte, naquela que conseguia dar forma ao curso do mundo e demonstrar seus limites e possibilidades. Trata-se da obra de arte exigente, que demanda reflexão e tomada de posição.
Há diferentes conceitos sobre a cultura. Uma das visões mais prestigiosas é como esfera dos valores espirituais, onde se constrói a linguagem da humanidade encapsulada nas grandes obras de arte. A partir desse ideal do humano, o mundo da cultura passaria julgamento sobre o mundo material, esfera dos interesses e dos conflitos. Essa visão faz pouco sentido em um mundo dominado pela indústria cultura.
Em nossos dias de máxima padronização, rareiam as condições de possibilidade para esse tipo de obra. Que resta então ao crítico cultural e aos produtores de cultura desejosos de intervir na formação social e enfrentar a avalanche da cultura apenas afirmando a vida tal qual ela é? Minha palestra vai procurar mapear as formas do negativo, as maneiras com que certos produtos e práticas culturais nos ajudam na tarefa inadiável de dizer não a um mundo que nega possibilidades e mudanças.
Maria Elisa Cevasco é doutora em Letras pela USP e professora associada em Estudos Culturais e Literaturas em Língua Inglesa. Publicou vários artigos no Brasil e no exterior , autora de Dez lições sobre estudos culturais (Editora Boitempo), Para ler Raymond Williams (Editora Paz e Terra) entre outros.