O TEMPO É ONDE, O LUGAR É QUANDO: TORREÃO – por Elida Tessler

O TEMPO É ONDE, O LUGAR É QUANDO: TORREÃO
Elida Tessler


“Alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João

É que quando cheguei por aqui
Eu nada entendi
Da dura poesia concreta das tuas esquinas…”

“Mas alguma coisa acontece no quando agora em mim…”

Caetano Veloso

Uma esquina. Uma quina de rua. Uma dobra da cidade de Porto Alegre. O TORREÃO é o cruzamento que produz acontecimentos. Se a canção de Caetano Veloso quer sublinhar o caráter de um tempo/espaço específico da cidade de São Paulo em mutação, absorvendo o que há de moderno e de enigmático em uma nova dinâmica do espaço urbano, eu gostaria de apontar aqui uma outra especificidade deste lugar, em um dos bairros tradicionais de Porto Alegre, o bairro Bom Fim, que borda o centro da cidade, criando outro ponto de convergência. Ali, pode-se identificar contrações e expansões do espaço, onde as coisas acontecem durante o processo, sendo realizadas no espaço, com o espaço, e a partir de seus elementos específicos. Há a vivência dos artistas e a convivência das proposições, alimentando uma conversa que se estabelece enquanto uma obra é produzida para um lugar determinado. É esse o quando e onde que nos interessa pensar.

Desde a abertura até o presente momento, o espaço específico da torre foi experimentado por oitenta artistas. Cada um traz seu material, suas idéias e seus procedimentos de trabalho próprios. Para o contexto do seminário “Ritmos da urgência, escolhi apresentar doze proposições que pontuam de maneira bastante específica esta dobra evocada pelo espaço/tempo, ou dizendo de forma diferente, as relações entre arte e lugar. São eles:

Waltercio Caldas (Rio de Janeiro)
Raquel Stolf (Santa Catarina)
Mauro Fuke (RGS)
Arthur Barrio (Portugal/RJ)
Marilice Corona (RGS)
Jochen Dietrich (Alemanha)
Tula Agnostopoulos (RGS)
Rommulo Conceição (Bahia/RGS)
Eduardo Frota (Ceará)
Gláucis de Moraes (RGS)
Lia Menna Barreto (RGS)
Ricardo Basbaum (RJ)

Como se pode perceber, cada um traz seu material, suas idéias e seus procedimentos de trabalho próprios. O espaço é sempre o mesmo: uma pequena sala quase cúbica, onde uma pia de louça branca jamais cumpriu sua função de lavabo, lavatório ou reserva d’água. Ela apenas pontua o lugar, oferecendo-se como objeto evocatório de nossas memórias líquidas. Temos ainda elementos da arquitetura bastante definidores do espaço em questão: quatro paredes, doze janelas, um corrimão. Uma escada estreita, o pé-direito alto, chão em ripas de madeira, com as fendas das emendas e as fissuras que o tempo já encarregou-se de oferecer. O teto, como céu distante, e as paredes, como limites sólidos. Tudo o que se poderia determinar como fixo é mutável.

O espaço é sempre o mesmo: uma pequena sala quase cúbica, onde uma pia de louça branca jamais cumpriu sua função de lavabo. Ela apenas pontua o lugar, oferecendo-se como objeto evocativo de nossas memórias líquidas. Temos ainda elementos da arquitetura bastante definidores do espaço em questão: quatro paredes, doze janelas, um corrimão. Uma escada estreita, o pé-direito alto, o chão em ripas de madeira, com as fendas das emendas e as fissuras que o tempo já encarregou-se de produzir. O teto, como céu distante, e as paredes, como limites sólidos. Tudo o que se poderia determinar como fixo é mutável.

Uma das melhores definições que já tivemos deste nosso espaço foi dada pelo artista brasileiro Waltercio Caldas, em depoimento durante a realização de sua intervenção: o Torreão é um copo d’água quase cheio. Ficamos então sempre atentos àquilo que o fará transbordar.


O Torreão foi inaugurado em 19 de junho de 1993, em Porto Alegre, por mim e Jailton Moreira, dois artistas plásticos, com necessidades diferentes mas um desejo comum: continuar uma conversa, antes estabelecida no contexto de uma escola de arte, enquanto colegas, logo transformado em amizade profunda.
Porém, o fator mais importante que realmente uniu estas necessidades foi a certeza de que a troca de experiências entre os dois artistas e o desenvolvimento de diálogos permanentes em torno de temas vinculados à arte contemporânea seria o eixo fundamental e o motor responsável pelo movimento constante nos entrecruzamentos de todas as propostas.

Desde então, o Torreão constitui um lugar que conjuga, basicamente, o meu atelier e o de Jailton Moreira, porém, com tudo o que este tipo de denominação possa apontar como questão, pois sabemos que nossas atitudes e formas de conduzir nossos trabalhos ultrapassam a idéia romântica de um único lugar de produção, propondo outros sentido a esta palavra. O Torreão é também o lugar onde Jailton desenvolve cursos e orientação de trabalhos, nas mais diferentes linguagens da arte. Mantemos ainda uma dinâmica de conversas com os artistas convidados que denominamos “Encontro com o artista”. Muitas vezes, abrimos este espaço para outros convidados, não necessariamente artistas, para vir compartilhar suas questões de trabalho. Neste contexto, realizamos os encontros com escritores, tradutores, cineastas, músicos, curadores, psicanalistas, enfim, interlocutores que contribuem para a ampliação de nossa proposta, e que estejam dispostos, em um domingo no final da tarde, a conversar. Ocupamos este lugar meio cheio/meio vazio com o que de melhor pode haver para o enriquecimento do espírito: questões, perguntas, surpresas, espantos, estranhamentos, identificações, reações adversas, enfim, tudo o que há de dinâmico neste movimento que propõe diálogos.

Nos altos da casa situa-se uma espécie de torre, reservada para intervenções de artistas.

O Torreão não é um espaço institucional e todos os trabalhos ali desenvolvidos são fruto de empenhos pessoais que contam também com a participação daqueles que o freqüentam. Algumas promoções aconteceram de forma conjunta com outras instituições da cidade e do país. Nós mantemos o nosso projeto Torreão propondo acima de tudo, um intercâmbio entre as produções e preocupações pessoais (as minhas e as de Jailton Moreira) com as pesquisas de outros artistas contemporâneos, dividindo com os alunos e o público as discussões referentes a problemas em torno do sistema da arte em geral
A idéia das intervenções de artistas na torre foi evocada pela própria arquitetura do local onde o Torreão se instala. Desde a primeira visita à casa, a torre anunciou-se como um espaço nobre, nos altos da construção, constituindo-se como metáfora de espaço permeável: o interior e o exterior em permanente comunicação através das doze janelas distribuídas nas quatro paredes. A paisagem entra generosamente na sala, dos quatro pontos cardeais trazendo realidades urbanas distintas. Antes de transformar este espaço em mais um atelier, seja para produção pessoal ou para cursos, nós resolvemos oferecer a torre a outros artistas, como um suporte de trabalho.
O artista deve se sentir convidado pelo local para a realização de um trabalho específico, no sentido da conjugação estreita entre a obra e seu espaço de apresentação.
As intervenções no Torreão tem acontecido de uma forma periódica, recebendo cerca de seis artistas por ano, completando, em outubro deste ano, oitenta formas de pensar este espaço específico. Durante este período de treze anos, contamos com o entusiasmo e a generosidade de vários artistas locais, nacionais e estrangeiros que através dos seus trabalhos fizeram do Torreão um espaço de experimentação, investigação e diálogo da produção contemporânea.

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