TÁTICAS DE AGLOMERAÇÃO – por Ricardo Rosas
TÁTICAS DE AGLOMERAÇÃO
Ricardo RosasEstratégias coletivas de movimentação podem ser arte? Protesto, ação direta, manifestação são também uma arte, ou posto de outra forma, existe uma “arte do protesto”? Talvez não sob esta denominação. O propósito aqui não é tanto analisar as formações coletivas sob um ponto de vista artístico que lhe tira de um contexto para enquadrá-lo em outro, caso de certas obras contemporâneas, como por exemplo, da Social Parade, de Jeremy Deller, ou outros que mimetizam passeatas e manifestações, ou seus cartazes num espírito absolutamente fora de circunstância.
A questão é virar esse olhar em 180 graus. Tentar a possibilidade de ser arte nas aglomerações, algo que críticos como Brian Holmes enxergam na criatividade dos protestos dos Dias de Ação Global, dos grupos anti-globalização e dos artistas-ativistas. Há arte porque a estética e o pensamento não estão excluídos aqui, mas presentes de uma forma muito crítica.
Como então, ampliando nosso ângulo de observação mais ainda, ver a arte do próprio método de aglomeração? Certamente as recentes idéias sobre o “enxame” (ou swarm) podem ser bastante úteis para se entender como grupos e comunidades se formam e se desfazem, caso dos flash-mobs. Podemos, no entanto, observar na própria tradição cultural brasileira, diversas formas de aglomeração que nos trariam mais clareza sobre a questão, pois porque muitos dos coletivos artísticos brasileiros, mesmo que inconscientemente, já adotam essas táticas faltando talvez desnudá-las para entender melhor tais formas e até mesmo pensar novas combinações ou re-combinações.
Se nos voltamos para práticas como o mutirão, a tertúlia ou o arrastão, percebemos muitos de seus elementos básicos presentes em ações aglomeradoras de coletivos, pois não nos referimos aqui as ações promovidas por um único grupo, mas as integrações de coletivos em ações simultâneas, como é o caso em festivais, encontros, ações diretas de defesa de movimentos sociais e mobilizações destes. Eventos como Mídia Tática Brasil, Digitofagia, ações como o Integração Sem Posse, ACMSTC ou da Favela do Moinho, entre outras, refletem atuações conjuntas realizadas de forma quase espontânea, com pouco ou quase nenhum apoio financeiro, de forma aberta e colaborativa, seguindo formatos que mais ou menos se assemelham a essas práticas brasileiras. E por que não procurar entendê-las? Por que não, por ocasião mesmo da 27ª Bienal de São Paulo, pensar “como agir juntos”, “como protestar juntos”?