Archive for the ‘Textos’ Category

por Gavin Adams

Thursday, November 2nd, 2006

Pessoas em Movimento Publico e Político: Considerações Iniciais e Provisórias

por Diogo Moyses e Jonas Valente

Thursday, November 2nd, 2006

TV Digital: a hora da produção independente e regional

A discussão sobre a implantação da TV digital no Brasil tem se concentrado nas características do padrão tecnológico a ser adotado e nas compensações industriais que o país pode receber na negociação. Contudo, a atenção dada até agora a estes dois temas desvia a discussão do ponto principal: o conteúdo que será transmitido pela nova plataforma de comunicação. No processo de digitalização, importa, sobretudo, o que a televisão vai mostrar. De um lado – por necessariamente induzir uma reconfiguração das regras da radiodifusão – a TV digital permite uma revisão qualitativa do conteúdo, sua linguagem e formato. De outro, a tecnologia possibilita uma ampliação diversificada e desconcentrada da produção audiovisual.

O que mais interessa, entretanto, é saber se a nova tecnologia permitirá maiores opções de escolha de programas gratuitos, se a diversidade cultural estará acessível para todos. Exatamente por isso, a TV digital brasileira precisa mirar a questão do conteúdo audiovisual e do modelo de negócios associado à veiculação deste. Alguns aspectos, em boa parte,são acessórios desta questão primordial.

As reflexões apresentadas se justificam pelas possibilidades advindas da nova tecnologia. Com a TV digital, é provável multiplicar o número de canais, o que pode garantir espaço na televisão aberta para novos programadores e produtores de conteúdo audiovisual. Do ponto de vista econômico, esta abertura pode ser a transição rápida para um setor com grande potencialidade.

Setor econômico fundamental
A pujança do setor audiovisual na economia dos países desenvolvidos é sintoma de como o debate sobre a digitalização no Brasil está sendo mal conduzido. Nos EUA, por exemplo, o setor econômico mais importante é justamente a economia da cultura e do audiovisual. Por isso, simplesmente discutir o padrão tecnológico a ser adotado pelo Brasil, é desperdiçar a oportunidade de promover o desenvolvimento do essencial e gerando mais empregos qualificados a médio prazo.

Se as definições acerca do SBTVD não tocarem no modelo de exploração da televisão aberta, todo este potencial poderá ser desperdiçado e o Brasil continuará refém de uma programação homogeneizada, baseada em material importado e produzido exclusivamente nas próprias emissoras.

Desde que existem, as emissoras não dão espaço nem para 5% do que o país produz. No ano passado, o Brasil exibiu na TV somente 1 dos 45 dos seus próprios filmes. O país ainda possui outra distorção: a maioria das emissoras, em vez de comprar produções independentes, acaba vendendo espaço na grade de programação para pastores evangélicos e promotores de venda.


Diversificar para desenvolver
Para os movimentos que lutam pela democratização das comunicações, a saída é apostar na veiculação desta produção, incentivando a fruição dos bens culturais por toda a população e, conseqüentemente, o desenvolvimento do setor audiovisual no país. O dinamismo dessa indústria, com geração de mais e melhores empregos, depende da criação de novos instrumentos legais para o setor, que contemplem preceitos constitucionais como o estímulo à programação regional e à veiculação da produção independente brasileira nas emissoras públicas e comerciais.

A opção apresentada não é nova, e resistir-lhe, também não. Desde 1991 tramita no Congresso um projeto de lei (PL 59/2003) que obriga as emissoras a veicular percentuais variáveis de programação regionalizada, devendo uma parte dela ser independente. A proposta segue congelada no Senado a pedido das emissoras, que afirmam não haver alternativa ao modelo de produção concentrada nas cabeças-de-rede.

Não contentes em não abrir parte do espaço de sua concessão, os radiodifusores ainda tentam impedir que os novos canais quando forem abertos com a TV digital, cumpram este papel. Um dos argumentos é não haver programação em quantidade e qualidade para ocupar este espaço.

Mesmo contra a lógica de mercado, sem incentivo nem apoio, a produção descentralizada cresce (afinal, como investir sabendo que não há como escoar a produção?), sendo o caminho mais curto para desenvolver o setor audiovisual brasileiro. As emissoras de TV, em sua polarização com as companhias de telecomunicações, tentam nos fazer crer que a defesa de seus interesses é a defesa do interesse nacional. Mas ao manter um mercado fechado e com essas enormes barreiras de entrada, o Brasil sufoca a sua própria cultura.

Em jogo estão duas formas de ver o que a TV deveria transmitir. De um lado, o modelo baseado nas emissoras comerciais defende que não haja ampliação de programações e os canais apenas melhorem sua qualidade de imagem e som. De outro, embora não uniformemente, acadêmicos, gestores públicos e integrantes da sociedade civil defendem o aproveitamento da TV digital para democratizar o concentrado cenário da mídia brasileira e o cumprimento das finalidades educativas e culturais presentes na Constituição Federal.

 

Diogo Moyses
Jonas Valente, membros do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

por Fabiane Borges

Thursday, November 2nd, 2006

REVERÊNCIAS E ANDRAJOS / REDES E LIMINARIDADES


Um homem de rua se espreguiçou do fundo dos amontoados dos sacos pretos de lixo; parecia estar emergindo das fissuras dos paralelepípedos. Ele se espichava vagarosamente, cascas de batata despencavam dos seus braços, pedaços de panos rasgados esfarrapavam-lhe o peito, um berro se enunciava.

Se não soubesse que era um morador de rua, pensaria tratar-se de uma eletrizante intervenção performática, produzida por algum performer inconformado com os espaços comuns de atuação de sua arte, resolvido a assumir a rua como lugar legítimo de experiência e produção.

O timbre do berro do homem-despacho era similar aos berros advindos das ruínas das Alemanhas neubautenianas. Aquele berro de rua emergido dos sacos de lixo mostrava um desespero ainda não suplantado.

A manifestação transitória das imagens, a narrativa fragmentada, o uso descontextualizado dos elementos disponíveis naquele espaço, os gestuais minimalistas, as fusões de imagens e sons em meio a via pública, tudo isso sugeria que eu estava diante de uma obra inaudita cuja criação era abstrata, pulsativa, primária, que por influxos germinativos conectados incorporava incríveis intensidades. O mendigo alheio à sua condição de artista, criador e manifestante político produziu uma performance pública, alterando naquele momento a realidade espaço-temporal comum, confundindo imagens e hipertextualizando os sentidos da rua.Que inscrições possíveis poderiam produzir essas corporeidades-linguagens instaladas nos espaços públicos da cidade? Seria possível deflagrar a partir desses corpos/modos uma crise amplificada que produzisse efeitos para além das lutas de classes identitárias, algo como uma convulsão performa/social? Que mecanismos empregar-se-iam para amplificar seus gestos de modo a fazê-los vibrarem mais, dilatarem-se, deslocarem-se para além de seus circuitos viciados a fim de constituírem-se como linguagem produtiva no socius, sem que pra isso precise fundar um movimento organizado, político-burocrático?

Essas questões tornaram-se as mais importantes em minhas criações artísticas e produções de eventos culturais: procurar nas fissuras do cotidiano e da linguagem dos que vivem nesses altos graus de exceção, suas constelações inenarráveis. Poderiam as tecnologias performáticas e multimidiáticas atravessar os véus endurecidos da falta, sobrepostos à experiência trágica do morador de rua? Os véus culturalmente criados a partir de valores ascendentes e assépticos que costumam reduzir a expressão vital do-que-vive-na-rua à pura incapacidade de adaptação ao sistema econômico, à inabilidade de articular o discurso da linguagem lógica e à patologia crônica seriam fatores impeditivos na busca de outras variabilidades?

Para suportar essas perguntas e aprofundá-las aproximei minhas pesquisas às do Renato Cohen porque intuía ressonâncias entre elas. Cohen às voltas com performance e loucura, fragmentações e desnarrativas, produzindo espetáculos cuja via irracionalista sempre surpreendia e frustrava o público teatreiro e galerista em busca de espetáculo. E eu tropeçando nas tentativas de compreender, para além das “faltas”, “limitações” e “desorganização de classe” dos moradores de rua… Compreender seus gestos como incisivas atuações antropológicas; mesmo quando em paralisias de gestos: greves humanas.

Foi com o que denominei eventos transconectivos que pude dar vazão a algumas dessas idéias. Criei alguns hapennings públicos com grupos que operavam com softwares de imagem e som, intervenção urbana, body modification, performance, circo e outros para que, junto com moradores de rua e também trabalhadores de serviços públicos que atuavam com moradores de rua, construíssem linguagens coletivas de caráter político e estético. Mas a essas experiências faltavam ainda a eficiência de levantar e atender demandas.

Sim. Demasiado ousado fazer política com festa pública. Mas era essa minha tarefa/pesquisa. Ao invés de um relato frustrado, compartilho algumas experiências vividas e reafirmo o papel interventor e inovador da arte quando obrigada a criar em tamanhas condições de riscos e vulnerabilidades.

 

 

 

Fabiane Borges atuou com moradores de rua na cidade de Porto Alegre como coordenadora do projeto inclusão cultural da Secretaria Municipal de Cultura com crianças e adolescentes em situação de rua, em São Paulo como participante do coletivo Catadores de Histórias e psicóloga institucional de equipamentos públicos (albergues e projetos sociais) e no Rio de Janeiro como consultora do Ministério da Saúde – Unidade de Prevenção DST/Aids. É mestre em psicologia pela PUC. SP e Professora de comunicação e jornalismo na UNICESP. DF. 2006.

por Claudia Paim

Thursday, November 2nd, 2006

O CONCEITO DE SITE-RELATED E
PROJETOS COLETIVOS DE ARTISTAS
(resumo)
Claudia Paim

Quais os limites do conceito de site-specific? Qual é o limite do trabalho?
James Meyer é um autor que distingue duas noções de site: literal site e functional site. A idéia de literal site considera o site em seus aspectos físicos, sobretudo. Se, agindo assim, os artistas supõem o site como único o trabalho que realizam será, então, ele mesmo, único. É, até certo ponto, a lógica do monumento (MEYER: 2000, p. 24). Como exemplos podem ser observadas as civic sculptures de Richard Serra.
Em contraste com o literal site, o functional site pode ou não incorporar o espaço físico que, então, não é privilegiado neste tipo de prática. Ela é mais da ordem do processo. É relacional e provoca uma ativação simultânea de outros sites que podem ser de instituições a textos e comportar de discursos a corpos que lhes animam. Ele é um informational site, sendo possível sua composição de forma simultânea por textos, fotografias, vídeos gravados, espaços físicos e objetos (MEYER: 2000, p. 25).
O trabalho site-related é, para este autor, aquele que é pensado também como mobilidade, ou seja, e este traço não apenas é representado ou mimetizado pela própria forma do trabalho (MEYER: 2000, pp. 32-33). Os projetos de Green, Fraser e Müller citados como exemplos são observados como propositores “de um modelo de site que é, como o sujeito que o atravessa, móvel e contingente” (idem, p.35).
Vamos usar agora uma iniciativa coletiva de artistas para pensarmos sobre as transformações da noção de site: Hoffmann’s House. Observá-la dentro da contemporânea noção de site-related: aqui a tônica é um pensamento que toma o site como um espaço relacional.
H’sH é uma pequena casa de madeira pré-fabricada. Dois artistas chilenos adquirem uma, adotam seu nome de batismo, instalam-se em ruas e parques e convidam outros artistas para ali realizarem exposições. Depois de um certo período, migram.

1 MEYER, James. “The functional Site; or, The Transformation of Site Specificity”. In: SUDERBURG, Erika (ed). Space, Site, Intervention: situating installation art. Minneapolis (EUA): University of Minnesota Press, 2000.


Em 2003, H’sH foi convidada para integrar uma exposição no Museu Salvador Allende. A estratégia adotada pelos seus administradores é digna de atenção: buscaram ocupar o museu, sem perder suas singularidades. Optaram por acoplar a casa de madeira em uma das aberturas do museu.

 

 


Hoffmann’s House. Museo de la Solidaridad Salvador Allende, 4 de julho a 3 de agosto de 2003.
Vendo imagens desta “simbiose”, não podemos deixar de pensar que a estratégia é a de um organismo o qual usa outro e, por seu turno, é, de alguma maneira, também usado. Para este projeto os artistas/administradores da casa optaram por realizar uma grande mostra de videoarte com a projeção de mais de quarenta trabalhos. Devemos observar ainda o título desta mostra, “Con energia más allá de estos muros” – sugerindo que, mesmo do lado de fora das paredes de um espaço institucional de visibilidade, há energia e trabalho, ou talvez, existam por isto mesmo…Claudia Paim
 

 

 

artista plástica,
doutoranda em Artes Visuais pela UFRGS

2006